Nelson Arns Neumann: “Não queremos igualdade para todos!”

Um erro muito comum ao trabalhar políticas públicas é a tendência de tratar a todos igualmente. Isso é especialmente perverso quando falamos de recursos públicos, financeiros ou não. Queremos uma sociedade que trate cada pessoa conforme a sua necessidade: queremos equidade e não igualdade.

Assim, cada ação do governo deveria ter uma premissa: o que será feito diminuirá a desigualdade social? A nova creche vai priorizar as famílias mais vulneráveis ou atender quem já tem voz, emprego, casa adequada e razoável escolaridade?

Uma segunda questão é o quanto vamos destinar ao futuro e quanto a apagar incêndios: as pessoas com comorbidades morrem mais pela Covid-19, têm maior dificuldade em se manter nos empregos (empresas preferem pessoas que não faltem ao serviço, ainda que esta falta ocorra por doença), têm maior gasto no dia a dia (remédios, tempo dispendido em consultas etc).

Dados científicos disponíveis há décadas indicam que crianças que nascem com baixo peso têm, na vida adulta, o dobro de chances de ter diabetes e hipertensão arterial, colesterol mais alto, obesidade, osteoporose e morrem mais de doenças cardíacas. Há, ainda, toda a consequência – também a longo prazo – do estresse tóxico na infância.

A pobreza está associada à prematuridade e ao retardo de crescimento dentro do útero, ou seja, ao baixo peso ao nascer. Pobres precisam de mais atenção, cuidados, de mais Estado. Infelizmente, com a Covid-19, as crianças pobres são, mais uma vez, as grandes vítimas.

Como é calculado o custo do benefício do investimento?

Uma quadra de saneamento em área rica beneficiaria cinco vezes menos pessoas que a mesma extensão em área pobre. Considerando que rico pode comprar água mineral, filtros, tem alimentação mais saudável e menos doenças crônicas, o impacto do saneamento na vida dos pobres é ainda maior.

O orçamento público, assim como o uso de nosso tempo, é questão de preferência: como vou aplicá-lo? Posso dedicar uma hora de meu tempo para ler um livro, usar as mídias sociais, cozinhar, passear com amigos ou dar atenção ao meu filho: sou eu quem decido. Orçamento é a mesma coisa, tão finito quanto o nosso tempo e tão maleável quanto as nossas prioridades. E a boa aplicação para o melhor retorno em capital humano não é restrita à área da saúde, educação ou assistência social. Por exemplo: na melhoria dos espaços públicos, irei ampliar a área para carros ganharem velocidade ou calçadas para as crianças brincarem em frente a suas casas? A rubrica é a mesma.

E o mais importante: o Estado é onipotente, onipresente e onisciente? Até a nossa Constituição Federal diz que as obrigações com relação à infância incluem a família e a sociedade.

As nossas ações serão de substituição da família ou de reforço dela?

Quero manter a dependência ou vou investir mais para que nossas famílias possam ser agentes de sua própria transformação? Vou usar sempre soluções de autoridade ou vou despertar soluções de liderança que vão muito além do simples arcabouço legal?

E para finalizar, lembro que a revista científica Lancet trouxe que a descoberta da medicina que mais salvou vidas no último século foi a mistura de água, sal e açúcar (sais de reidratação oral/soro caseiro).

Há muitas soluções de baixo custo e alta eficiência a nossa espera, mas é preciso valorizar a ciência e estar aberto também ao novo.


Nelson Arns Neumann

Coordenador Internacional da Pastoral da Criança. Médico, mestre em epidemiologia e doutor em Saúde Pública.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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