Quem fala sobre primeira infância nas quebradas?

Criança na periferia brincando de bolha de sabão

Imagine isso: você vive em uma cidade que não possui sequer um jornal ou veículo de comunicação. Tudo o que vê na TV ou lê na internet não diz respeito à sua comunidade, bairro ou território. Suas principais fontes de informação são, portanto, o que circula no grupo de WhatsApp da família. E você toma suas decisões cotidianas com base nisso. Qual o perigo? 

Pois é, não é preciso explicar muito. Hoje, 62% dos municípios brasileiros vivem essa realidade, segundo o Atlas da Notícia. E os moradores dessas cidades estão prestes a decidir seus votos – e destinos – nestas eleições. Mas sem cobertura, sem fiscalização do poder público, sem informação checada, não há como garantir que essas pessoas vão, de fato, fazer a melhor escolha. 

Por ser um país de grandes proporções e de contextos muito diversos, a falta de cobertura nos territórios impacta diretamente o desenvolvimento local. IDH, escolaridade e renda, por exemplo, são menores em locais com pouco ou nenhum jornal. Sem um espaço para que a informação local circule, temas que são de necessidade fundamental para a comunidade – como é o caso das políticas públicas direcionadas à primeira infância – acabam por não entrar na pauta municipal exatamente para quem mais depende do sistema público. 

Mas informação é a força vital de uma comunidade. Não só as pessoas querem saber o que está acontecendo em seus territórios e exigir que políticos prestem contas do seu trabalho, mas o poder público também precisa se comunicar com os cidadãos, para fazer o cadastramento de vagas na creche ou divulgar suas campanhas de vacinação e prevenção. E essas necessidades não vão mudar. 

É nesse vácuo que iniciativas de jornalismo local e coletivos de comunicação têm atuado: a partir de seus territórios, usando o jornalismo como uma ferramenta para olhar para o entorno, ouvir as pessoas dizerem o que precisam e construir um caminho para que isso aconteça. Especialmente dentro dos canais em que essa população já se informa – sendo o WhatsApp o principal deles, já que em muitos locais o acesso à internet é limitado e o aplicativo não consome dados para ser utilizado. 

Carla Siccos, fundadora do CDD Acontece, canal de notícias para moradores da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, tem em sua lista de transmissão de WhatsApp mais de 9 mil assinantes. É por lá que ela recebe diariamente mensagens com sugestões de pauta dos moradores e informa sobre acontecimentos locais. Carla realizou o primeiro debate de candidatos a vereador de Cidade de Deus, em 2016, transmitido via Facebook. Seu trabalho ajuda a fiscalizar e garantir o acesso a direitos no bairro. Durante a pandemia, vimos trabalhos como o de Carla ganhar ainda mais relevância. Enquanto a imprensa tradicional comunicava a recomendação da OMS de lavar as mãos e higienizar os alimentos, eram esses os veículos que denunciavam a histórica falta de água em comunidades periféricas e favelas – e a impossibilidade de cumprir com uma solicitação teoricamente simples em meio à maior crise de saúde do século. 

“Os veículos de comunicação tradicionais – na maioria das vezes – colocam no ar uma cobertura que estigmatiza os problemas ou exclui as potencialidades de cada território. Já o veículo local consegue tanto se aprofundar no conteúdo quanto alcançar os moradores que querem que suas demandas e/ou soluções possam ser ouvidas da melhor forma possível”, afirma Gessika Lima da Costa, fundadora do coletivo O Que Os Olhos Não Vêem, de Ponta Grossa, periferia de Maceió. 

Apoiar essas iniciativas, com ferramentas e recursos, é garantir que, mais do que um jornalismo representativo em sua composição e diverso em vozes, linguagens, formatos e estratégias de distribuição, a informação que precisa chegar até às pessoas chegue de fato.  

Essas iniciativas têm o poder de pautar o debate localmente. Em termos práticos, revelar que indicadores os municípios apresentam em torno de políticas como a Estratégia Saúde da Família ou quais são os dados de acesso à creche ou, ainda, o número e perfil dos atendimentos dos conselhos tutelares ajuda a diagnosticar as prioridades na região. E que, portanto, deveriam ser defendidas pelos programas de governo.  

No plano simbólico, a melhora na qualidade da cobertura jornalística nas comunidades pode ajudar o eleitor a entender o cenário político e, no limite, determinar que rumos seguir num contexto micro e também macro, pois a gestão eleita influenciará o pleito federal, daqui a dois anos. 

Por isso, se o papel do jornalismo é estar a serviço da sociedade, ele precisa estar próximo, disposto a ouvi-la e a construir com ela. E a vantagem é que esses valores já fazem parte do DNA dos coletivos de comunicação e organizações de jornalismo local

Nina Weingrill

Coordenadora de Jornalismo Local da Énois  

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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