Se pudesse olhar a cidade da altura de uma criança de 3 anos, o que esperaria do próximo gestor?

Menino e a cidade

Investir nos primeiros anos de vida é uma das melhores estratégias para que uma sociedade se desenvolva e quebre seus ciclos de pobreza e exclusão. Os argumentos sobre a importância da primeira infância já existiam há décadas, a partir da psicologia e da pedagogia, mas foram as pesquisas na neurociência que apresentaram dados e evidências científicas ainda mais incontestáveis. Noventa por cento das conexões neuronais ocorrem nos primeiros anos de vida, é toda a “infraestrutura do sujeito” sendo constituída nesse começo da vida. 

James Heckman, vencedor de um Prêmio Nobel de economia, trouxe o argumento de seu campo de conhecimento, demonstrando o imenso retorno que investir nos bebês e nas crianças pequenas pode trazer para a sociedade, também em termos de retorno econômico.  

A mudança promovida por políticas e programas na primeira infância é mais profunda e mais duradoura do que em qualquer outro estágio da vida. São tantos os estudos e tamanho o esforço em comunicar essa realidade que uma parte importante dos gestores públicos no Brasil já está convencida sobre o fato, mas essa não é uma garantia de mudança na vida das crianças pequenas e suas famílias.  

Estamos agora descobrindo juntos, mundo afora, COMO devemos concretizar esse conhecimento, transformando-o em políticas públicas de qualidade. Centros de saúde, capazes de acompanhar o desenvolvimento das crianças, oferecer vacinação e orientação sobre nutrição são fundamentais. A oferta de creches e pré-escolas de qualidade é outro eixo importante. Cada vez mais, estamos certos de que a busca ativa para incluir os mais vulneráveis é necessária e programas de visitação domiciliar desempenham seu papel para essa população. Criar serviços e buscar potencializá-los a partir da intersetorialidade é importante; mas,  assegurar a utilização dos mesmos é igualmente fundamental. 

Oitenta e seis por cento da população brasileira vive em cidades e é nelas que a maioria das nossas crianças nasce, cresce e se desenvolve. Para garantir a utilização dos serviços, é preciso haver transporte, envolvendo a política de mobilidade. A proximidade de cada serviço também importa, principalmente quando nos deslocamos com um bebê ou com várias crianças pequenas. Dentro de uma mesma cidade, uma mãe pode demorar horas para chegar ao serviço necessário, o que a desmotiva e até a impede de acessá-lo, por vezes. Ou seja, não basta o serviço existir, é preciso planejar o acesso, mapear e enfrentar os vazios de políticas e de programas com uma boa base de dados. Daí a importância de diversos setores da cidade se envolverem no tema da primeira infância, de forma integrada. 

A iniciativa Urban95 convida gestores a olharem para todos os investimentos que farão na cidade a partir de uma boa gestão de dados e da lente da primeira infância. Saber onde estão os serviços e qual a conectividade entre eles. Para que uma família possa se deslocar caminhando, por exemplo, a existência ou não de calçadas, de árvores que façam sombras, de áreas de descanso e apoio podem fazer toda a diferença. Uma cidade boa para mulheres grávidas, para bebês e suas famílias certamente será melhor para todos. 

Toda criança tem o direito de crescer em um ambiente onde se sinta segura, tenha acesso a serviços básicos, ar puro, água limpa, possa brincar, aprender e ter suas opiniões consideradas. No Brasil, cerca de 65% das crianças passa os primeiros anos de vida sem frequentar uma creche e, portanto, usufruindo basicamente de sua casa e dos espaços públicos como 100% de seu espaço de desenvolvimento. Bebês e suas famílias podem estar mais isolados, dentro de casa, por falta de espaços públicos de convivência próximos, ou brincando ao ar livre, encontrando e aprendendo com outras famílias, com outras crianças e com a natureza. E mesmo para os que frequentem a creche, a cidade permanece como mais uma oportunidade de promover o desenvolvimento integral

Encontrar nas ruas ambientes seguros, confortáveis e saudáveis, capazes de promover interações diversas, potentes e transformadoras, é um caminho necessário, interessante e gostoso para pensarmos e planejarmos espaços de promoção do desenvolvimento integral. Não falamos apenas de parquinhos, falamos de uma cidade toda mais verde, mais aberta a receber e acolher as famílias em seus cantinhos ou em seus grandes espaços públicos. Buscamos construir uma cidade mais lúdica, que instigue a empatia e a curiosidade e que ofereça à comunidade a oportunidade de exercer o seu papel de apoio a cada vida nova que chega ao mundo. Todos merecem um bom começo.  

E você, se pudesse olhar a cidade dos 95 cm de altura, o tamanho de uma criança de 3 anos, o que esperaria da sua cidade? 

Claudia Vidigal

Claudia Vidigal

Representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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